Sebastião Salgado - uma breve análise da sua obra


O fotógrafo mineiro Sebastião Salgado, nascido em 1944 na cidade de Aimorés, conta com um vasto repertório de projetos ao redor do mundo que agrupam e selecionam suas obras de acordo com diferentes temáticas. 


  Suas fotografias são majoritariamente críticas, uma vez que elas retratam uma série de problemas sociais, mostrando e denunciando ao mundo várias atrocidades cometidas, a exploração e a desigualdade humana e o sofrimento de milhões de pessoas que lutam diariamente contra a fome, a miséria e a intolerância. Por esse motivo ele se considera uma testemunha da condição humana.

 Além disso, é importante enfatizar que as fotografias do Sebastião são em tons de preto, branco e cinza, o que confere mais destaque em relação à profundidade e ao caráter crítico das suas obras, sem desviar a atenção para as cores. Assim, o uso dessas tonalidades enaltece e ressalta elementos essenciais em cada composição fotográfica. 

  No documentário “O Sal da Terra”, que retrata a trajetória de Sebastião Salgado, é mencionado o fato de que os fotógrafos são pessoas que desenham o mundo com as luzes e sombras, características essa bastante visível em suas obras em função da presença marcante desses dois elementos, do contraste forte e do trabalho de exposição, luminosidade e brilho que ressaltam ainda mais a visão e a mensagem de cada fotografia. 

  Dessa forma, escolhi pesquisar mais sobre a vida de Sebastião Salgado, já que sempre admirei as suas obras - por serem carregadas de força, sentimentos humanos, críticas sociais e de uma estética extremamente sensível que valoriza os aspectos principais de cada composição. 

 Uma vez que o documentário afirma que as pessoas são “o sal da terra” optamos por escolher três fotografias que retratem seres humanos em diferentes contextos. 



Refugiado da Etiópia no Sudão - 1985
Projeto "Sahel: Homem em Agonia" (região do Sahel, na África)

  Em uma breve análise dessa obra é possível comentar o fato de que o fundo claro esbranquiçado ilumina e contrasta com o tom de pele negro do homem e de seu filho, conferindo maior destaque e o protagonismo da foto aos dois. Além disso, a fotografia é tirada de baixo para cima, ângulo esse que ressalta o aspecto heroico do pai após percorrer uma longa distância do seu país de origem até o Sudão. Tal visão contrasta diretamente com a figura da criança morta em seus braços, (provavelmente em função da fome ou de alguma doença, devido à sua extrema magreza) mesmo apesar de toda a sua luta ao longo do trajeto e da vida. A tristeza, transtorno e inconformismo do pai, que não chegou a tempo de conquistar um amparo médico ao filho, são expressas pelo seu olhar vago. Ao fundo, ainda é possível ver o seu camelo desfalecido após a longa e cansativa jornada. Por fim, também pode-se traçar um paralelo entre essa fotografia de Sebastião Salgado e a obra "Pietà" de Michelangelo, em que Maria segura em seus braços seu filho morto, Jesus.




A febre do ouro (Serra Pelada, Pará) - 1986
Projeto "Trabalhadores"

  O padrão e a impessoalidade dessa fotografia são estabelecidos a partir do momento em que ela é tirada com todos os homens de costas, em posições semelhantes, usando roupas parecidas e carregando sacos cheios de materiais do garimpo em suas costas, remetendo à uma espécie de "formigueiro humano". Essa obra também é tirada de baixo para cima, o que ressalta o aclive acentuado percorrido por essas pessoas por meio das escadas e o perigo da queda. Além disso, a luz incide diretamente nos sacos, característica essa que confere ainda mais destaque ao fato de que, apesar de parecerem escravos, esses homens de realidades e contextos distintos eram escravos apenas da sorte e do desejo de enriquecimento.



A índia Beti - Terra Indígena Yanomami
Projeto "Gênesis" (2004 - 2013)

O olhar fixo de Beti remete ao fato de que, de acordo com Sebastião,  os indígenas possuem plena consciência da própria imagem e, em primeiro momento, se interessam pela fotografia, mas, repentinamente, perdem esse interesse. O foco em primeiro plano é a figura feminina, já que na cultura dos yanomamis as mulheres são muito valorizadas, podendo ter cerca de cinco maridos e cada um com uma função diferente na tribo (pescador, caçador...). Outro detalhe  também destacado pela ausência de cores na fotografia de Sebastião é a presença marcante dos elementos naturais nessa obra, como as folhas no fundo e os adereços da índia, que retomam à temática central do projeto "Gênesis" de homenagear o planeta Terra.


Comentários

Postagens mais visitadas